As eleições de 2022 em Mato Grosso não apenas definiram a composição da Assembleia Legislativa, como também escancararam os efeitos práticos do sistema proporcional brasileiro sobre a representação política. Ao eleger 24 deputados estaduais, o pleito revelou que vencer uma eleição não depende apenas do voto individual, mas, sobretudo, da força coletiva dos partidos, do quociente eleitoral, do quociente partidário e da disputa pelas sobras.
Este artigo analisa os principais resultados do pleito estadual, contextualizando o perfil do eleitorado, a distribuição partidária e, principalmente, os mecanismos institucionais que explicam por que determinados candidatos foram eleitos — mesmo com votações menores que outros não eleitos.
1. O eleitorado
Em 2022, Mato Grosso contabilizou 2.469.414 eleitores aptos, com índice de comparecimento em torno de 81,66% e nível de abstenção próximo a 23,37%, mantendo tendência histórica de elevação das ausências eleitorais desde 2012. Esse comportamento sugere uma dissociação entre expansão do cadastro eleitoral e engajamento efetivo no processo democrático.
Os gráficos a seguir traduzem essa realidade em dados objetivos, evidenciando a evolução do número de eleitores aptos, do comparecimento às urnas e do crescimento consistente das abstenções no Mato Grosso ao longo do período analisado (Figura 1).
A Figura 2 evidencia o perfil social do eleitorado mato-grossense, revelando uma predominância feminina, com 51% dos eleitores, frente a 49% do gênero masculino. Do ponto de vista etário, observa-se uma concentração significativa do eleitorado nas faixas de idade economicamente ativas, especialmente entre 25 e 44 anos, com destaque para o grupo de 35 a 39 anos, que representa o maior percentual individual. As faixas etárias mais jovens (16 a 24 anos) e as mais avançadas (acima de 70 anos) apresentam participação proporcionalmente menor, indicando que o núcleo central do eleitorado está situado na meia-idade.
Esse recorte demográfico é relevante para a análise eleitoral, pois aponta para um eleitorado majoritariamente adulto, com maior estabilidade social e potencial influência sobre a dinâmica política e as estratégias de campanha no estado.
A figura apresentada acima demonstra que o eleitorado do Mato Grosso é composto majoritariamente por pessoas pardas (60,51%), seguido por eleitores brancos (25,79%) e pretos (10,34%), enquanto as populações indígenas (2,73%) e amarela (0,62%) representam parcelas menores do total.
No que se refere ao grau de instrução, observa-se a predominância de eleitores com ensino médio completo (26,20%), seguidos por aqueles com ensino fundamental incompleto (21,20%) e ensino médio incompleto (17,95%), indicando que a maior parte do eleitorado possui escolaridade intermediária. Os eleitores com ensino superior completo (13,32%) e superior incompleto (6,21%) formam um contingente relevante, embora minoritário, enquanto os analfabetos (3,30%) representam uma fração reduzida.
Esse perfil educacional e racial evidencia a diversidade social do eleitorado mato-grossense e reforça a importância de estratégias políticas e comunicacionais que dialoguem com diferentes níveis de escolaridade e realidades sociais.
2. Quem são os 24 deputados estaduais eleitos em Mato Grosso (2022)
A seguir, a lista completa dos deputados estaduais eleitos, com partido e número de votos válidos:
Cerca de 33,33% dos deputados estaduais foram eleitos pelo critério das sobras, mecanismo que favoreceu partidos com bom desempenho global de votos, mesmo quando seus candidatos individualmente não figuraram entre os mais votados do estado. Esse mecanismo explica por que candidatos com menos votos podem ser eleitos, enquanto outros, mais votados, ficam de fora: o voto no sistema proporcional é, antes de tudo, um voto no partido. O resultado confirmou a predominância dos partidos de direita, que ocuparam 54,54% das cadeiras, seguidos pelo centro (27,27%) e pela esquerda (18,18%).
Quando o assunto é eleição proporcional (deputado federal e estadual), Mato Grosso já tem uma prova recente — e matemática — de que “ser o mais votado” não é sinônimo de “ser eleito”. Em 2022, os resultados no estado deixaram um recado direto para 2026: o método de conversão de votos em cadeiras e a força partidária (ou federativa) pesam mais do que votos isolados, por mais expressivos que sejam.
3. Conclusão: eleições se vencem com engenharia partidária
As eleições de 2022 em Mato Grosso evidenciam uma lição central: no sistema proporcional, votos isolados não garantem mandato. A vitória depende da engenharia da nominata, do equilíbrio interno da chapa, da capacidade de atingir o quociente partidário e de disputar as sobras com competitividade. Em síntese, quem compreende e domina os mecanismos institucionais da proporcional transforma base social em cadeiras parlamentares. Quem ignora essa lógica, mesmo bem votado, corre o risco de ficar pelo caminho.
A persistente elevação das abstenções indica que existe um contingente expressivo de votos potenciais ainda não mobilizados, o que pode se tornar um diferencial competitivo decisivo em 2026 para partidos e candidaturas que consigam reduzir o não comparecimento por meio de estratégias de mobilização e ancoragem local. Além disso, o descompasso entre o perfil social do eleitorado — majoritariamente feminino, pardo e de escolaridade média — e o perfil dos eleitos revela uma oportunidade programática e eleitoral para quem souber converter representatividade social em votos válidos para a legenda.
À luz dos resultados das eleições de 2022 em Mato Grosso, o pleito de 2026 tende a ser ainda mais condicionado pela engenharia partidária e pelo domínio do sistema proporcional, mais do que pelo desempenho individual isolado dos candidatos. Os dados de 2022 demonstraram que a maior parte das cadeiras foi definida pelo quociente partidário e pela disputa das sobras, favorecendo legendas com nominatas equilibradas, capacidade de voto de legenda e organização territorial eficiente.
Por fim, a tendência para 2026 é de que terão maiores chances de êxito as candidaturas inseridas em projetos coletivos bem estruturados, com planejamento antecipado da nominata, distribuição racional de votos e compreensão estratégica do funcionamento do quociente eleitoral, consolidando a lógica de que, no sistema proporcional, método e organização valem tanto quanto popularidade individual.
Nota: Distribuição de cadeiras por partido – Assembleia Legislativa de MT (2022)
a) MDB - 4 deputados: Janaína Riva, Thiago Silva, Dr. João e Juca do Guaraná Filho.
b) União Brasil - 4 deputados: Eduardo Botelho, Dilmar Dal Bosco, Sebastião Rezende, Júlio Campos
c) PSB: 4 deputados - Max Russi, Fabinho, Beto Dois a Um, Dr. Eugênio
d) PSD: 2 deputados - Nininho e Wilson Santos
e) PT: 2 deputados - Lúdio Cabral e Valdir Barranco
f) PL - 2 deputados: Gilberto Cattani e Elizeu Nascimento
g) Republicanos- 2 deputados: Diego Guimarães e Valmir Moretto
h) Cidadania - 1 deputado: Faissal Calil
i) PSDB- 1 deputado: Carlos Avalone
j) PP- 1 deputado: Paulo Araújo
k) PTB - 1 deputado: Cláudio Ferreira
Autora: Adriane do Nascimento é doutoranda em Direito Constitucional pelo Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa (IDP); Mestra em Economia, Políticas Públicas e Desenvolvimento pela mesma instituição e especialista em Direito Tributário, Direito Societário e Direito do Trabalho. Atua como advogada e consultora econômica, com escritórios em Cáceres e Cuiabá (MT). É sócia-administradora da Sociedade de Advocacia Simões Santos, Nascimento & Associados e Diretora Executiva da Consultoria Empresarial e Econômica Simões Santos, Nascimento & Almeida, com atuação em Planejamento Patrimonial estratégico, estruturação de negócios corporativos, análise de mercado e projeções econômicas. Foi consultora da Comissão Especial de Direito Tributário do Conselho Federal da OAB, na gestão 2022–2024. É vencedora do 1º lugar do XXIX Prêmio Brasil de Economia (2023), na categoria Artigo Técnico-Científico, e do 3º lugar do XXX Prêmio Brasil de Economia (2024), na categoria Artigo Temático, concedidos pelo Conselho Federal de Economia (COFECON). E-mail: [email protected].
Referências:
BRASIL. Tribunal Superior Eleitoral. Repositório de Dados Eleitorais: eleições 2022. Brasília: Tribunal Superior Eleitoral, 2022. Disponível em: <https://dadosabertos.tse.jus.br>. Acesso em: 08 jan. 2026.
BRASIL. Tribunal Superior Eleitoral. Repositório de Dados Eleitorais: votação por seção – Mato Grosso – eleições gerais 2022. Brasília: Tribunal Superior Eleitoral, 2022. Disponível em: <https://dadosabertos.tse.jus.br/dataset/resultados-2022>. Acesso em: 13 jan. 2026.
BRASIL. Tribunal Regional Eleitoral de Mato Grosso. Resultados das eleições gerais de 2022 – Mato Grosso. Cuiabá: Tribunal Regional Eleitoral de Mato Grosso, 2022. Disponível em: <https://www.tre-mt.jus.br>. Acesso em: 13 jan. 2026.
BRASIL. Tribunal Regional Eleitoral de Mato Grosso. Divulgação de candidaturas e resultados – Eleições gerais 2022. Cuiabá: Tribunal Regional Eleitoral de Mato Grosso, 2022. Disponível em: <https://www.tre-mt.jus.br/eleicoes/eleicoes-2022>. Acesso em: 13 jan. 2026.








