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Cuiabá, 15 de Janeiro de 2026

Opinião Quinta-feira, 15 de Janeiro de 2026, 09:56 - A | A

Quinta-feira, 15 de Janeiro de 2026, 09h:56 - A | A

FÁBIO MONTEIRO

Quando a gestão de crise vira combustível do desastre

O caso do Banco Master demonstra com clareza que crises mal geridas não se encerram

Crises de reputação não são vencidas no grito, nem no volume de engajamento. Tampouco se resolvem terceirizando a defesa institucional para influenciadores pagos, especialmente quando essa estratégia é utilizada para confrontar órgãos reguladores. O episódio envolvendo o Banco Master tornou-se um caso exemplar de como uma leitura equivocada sobre gestão de crise pode transformar um problema grave em um colapso reputacional de grandes proporções.

O que já era uma crise séria ganhou contornos ainda mais delicados nesta semana, quando a Polícia Federal deflagrou uma nova operação contra o banco e seu controlador, Daniel Vorcaro. O avanço das investigações, com medidas patrimoniais e ampliação do escopo criminal, evidencia o grave erro de gestão de crise.

Antes mesmo desse novo desdobramento, a estratégia adotada para lidar com o desgaste já chamava atenção de forma negativa. A contratação de influenciadores digitais para defender o controlador do banco e, simultaneamente, atacar publicamente o Banco Central do Brasil revelou uma incompreensão profunda sobre o papel da comunicação em cenários críticos. Em vez de reduzir ruídos, a iniciativa ampliou o alcance da crise, deslocando o debate dos fatos objetivos para a tentativa de manipulação da opinião pública. Ao fazê-lo, contribuiu para criar um ambiente de maior pressão institucional e intensificação do escrutínio, no qual respostas mais duras e céleres dos órgãos de investigação tornaram-se praticamente inevitáveis.

Esse tipo de abordagem produz um primeiro dano reputacional imediato, a quebra do pacto de credibilidade. Em setores regulados, como o sistema financeiro, reputação não é um ativo secundário, mas a base da legitimidade institucional. Quando uma organização demonstra incapacidade de responder com transparência e opta por terceirizar sua defesa a vozes contratadas, a percepção pública é devastadora. Se há necessidade de fabricar apoio, algo essencial está sendo ocultado. A partir desse ponto, toda comunicação futura passa a ser recebida com desconfiança estrutural.

Há também um efeito cumulativo menos visível, porém mais perigoso. Estratégias baseadas em ataque institucional e narrativas artificiais tendem a chamar a atenção não apenas da imprensa, mas dos próprios órgãos de controle. O barulho excessivo, o confronto direto com reguladores e a tentativa de deslegitimação pública de decisões técnicas criam um ambiente propício ao aprofundamento das fiscalizações. Ainda que investigações sigam seus próprios ritos legais, é inegável que crises mal-conduzidas ampliam o radar institucional e aceleram processos de apuração.

Outro impacto relevante está no isolamento progressivo da instituição. Investidores, parceiros estratégicos, interlocutores silenciosos e até possíveis defensores institucionais tendem a se afastar quando a crise assume contornos de confronto e descontrole. Poucos atores estão dispostos a associar sua reputação a uma organização percebida como hostil às regras do jogo regulatório. O resultado é um vácuo de apoio que fragiliza ainda mais a posição da empresa em momentos decisivos.

Há, ainda, o dano pedagógico negativo. Ao transformar a gestão de crise em uma disputa de engajamento, reforça-se a falsa ideia de que reputação pode ser comprada, moldada por alcance digital ou sustentada por campanhas ruidosas. Reputação não se constrói assim. Ela é fruto de coerência, previsibilidade, responsabilidade e respeito institucional. Quando esses pilares são substituídos por barulho e ataque, o prejuízo não é apenas externo, mas estrutural, afetando tudo, desde a governança e cultura interna, até a capacidade futura de reconstrução.

O papel de um agente de crise de imagem não é vencer narrativas, mas reduzir assimetrias de informação, preservar legitimidade e evitar que a crise ultrapasse o ponto de não retorno. Quando uma estratégia de comunicação amplia o noticiário negativo, gera novas frentes de investigação e agrava o desgaste institucional, ela deixa de ser gestão de crise e passa a ser vetor de agravamento do problema.

O caso do Banco Master demonstra com clareza que crises mal geridas não se encerram, elas se transformam e se aprofundam. O problema reputacional já não é mais de imagem, mas de credibilidade estrutural. Confiança não se recompra, não se viraliza e não se reconstrói com contratos de marketing. Perde-se uma vez. E, em muitos casos, para sempre.

Fábio Monteiro é jornalista, especialista em gestão de crise e reputação e CEO da Dialum Assessoria de Imprensa & Comunicação Estratégica