A Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF), por unanimidade, negou trancar a ação penal que apura o rombo de R$ 56 milhões causado por um suposto esquema de fraudes em licitações da Secretaria de Estado de Educação (Seduc), objeto de investigação da Operação Rêmora.
A decisão colegiada foi tomada em sessão virtual encerrada nesta sexta-feira (4), quando os ministros indeferiram o habeas corpus da defesa do ex-presidente da Assembleia Legislativa, Moisés Feltrin.
Acusado de integrar a suposta organização criminosa investigada, a defesa de Feltrin argumentou violação ao artigo 41 do Código de Processo Penal e pediu que fosse reconhecida a inépcia da denúncia. Para a defesa, o Ministério Público não teria descrito de forma individualizada conduta do ex-deputado estadual e, por isso, deveria a ação ser anulada.
Porém, a tese não convenceu os membros da turma julgadora, que votaram nos termos do voto do relator, ministro Marco Aurélio.
Ao votar pela rejeição do HC, o ministro demonstrou que a denúncia, ao contrário do que alegou a defesa, narrou em detalhes os crimes imputados à Feltrin.
“Na denúncia – documento nº 3 –, narrou-se o contexto dos crimes atribuídos ao paciente, apontando haver se associado aos corréus, com a finalidade de cometer fraudes em licitações no âmbito da Secretaria Estadual de Educação, Esporte e Lazer do Estado de Mato Grosso – SEDUC /MT. Ressaltou-se formalização de acordos para fixação artificial de preços oferecidos ao Poder Público, visando controlar o mercado de engenharia e construção civil. Apontou-se posição de gerenciamento no grupo e o favorecimento à empresa Tirante Construtora e Consultoria LTDA., da qual seria representante, considerado acesso a informações privilegiadas, fornecidas por funcionários públicos, mediante o pagamento de vantagens indevidas. A inicial atende à organicidade do Direito, observado o artigo 41 do Código de Processo Penal, viabilizada defesa”, registrou o ministro.
Participaram do julgamento os ministros Alexandre de Moraes, Dias Toffoli, Rosa Weber e Roberto Barroso.
Rêmora
A Operação Rêmora, deflagrada em maio de 2016, investigou um esquema de combinação de licitações no valor de R$ 56 milhões para reformas e construções de colégios na Secretaria de Educação.
Em seguida, foi descoberta a cobrança de propina de até 5% sobre os contratos de empresas que prestavam serviços a pasta.
Segundo consta na denúncia, entre março e abril de 2015, o grupo criminoso, supostamente liderado pelo empresário Alan Malouf, teria extorquido as empresas Relumat Construções Ltda. e Aroeira Construções Ltda, que possuíam contratos com o Estado para a realização de obras públicas.
De acordo com o Grupo de Atuação Especial Contra o Crime Organizado (Gaeco), o esquema tinha três núcleos: de agentes públicos, de operações e de empresários.
O núcleo de operações, após receber informações privilegiadas das licitações públicas para construções e reformas de escolas públicas estaduais, organizava reuniões para prejudicar a livre concorrência das licitações, distribuindo as respectivas obras para empresas, que integravam o núcleo de empresários.
Por sua vez, o núcleo dos agentes públicos era responsável por repassar as informações privilegiadas das obras que ocorreriam e também garantir que as fraudes nos processos licitatórios fossem exitosas, além de terem acesso e controlar os recebimentos dos empreiteiros para garantir o pagamento da propina.
Já o núcleo de empresários, que se originou da evolução de um cartel formado pelas empresas do ramo da construção civil, se caracterizava pela organização e coesão de seus membros, que realmente logravam, com isso, evitar integralmente a competição entre as empresas, de forma que todas pudessem ser beneficiadas pelo acordo.
Os valores cobrados mediante propina variavam de R$ 15 a R$ 50 mil.
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