facebook instagram
Cuiabá, 24 de Junho de 2024
logo
24 de Junho de 2024

Opinião Segunda-feira, 25 de Novembro de 2019, 08:03 - A | A

25 de Novembro de 2019, 08h:03 - A | A

Opinião /

Você já sentiu inveja?

Todo mundo já teve uma pontinha de inveja, mesmo que não admita, por conta da palavra ser impregnada de negativismo e proibida biblicamente como um grande pecado



Todo mundo já lançou a pergunta - ou em algum momento da vida se perguntou -, 'quem nunca sentiu inveja, uma vez que seja na vida? Consciente ou inconsciente'.

Ainda que seja um tema absolutamente comum, admito que este fato, em particular, sempre me chamou a atenção. E confesso que já até perguntei a amigos mais próximos se algum deles teria a coragem de admitir que já foi impactado, ainda que por segundos, pelo enorme e até vergonhoso sentimento de inveja. De alguém ou de alguma situação que tenha desejado enormemente que estivesse ocorrendo com ele.

Observado com um 'grande tabu social', no entanto, vira e mexe o tema é assunto nas rodinhas de amigos, da família ou mesmo nas rodas de bar. Afinal, a inveja é um fenômeno humano universal, sobretudo, atemporal. Ou seja, existe há milênios!

Para muitos terapeutas e estudiosos, a inveja - ainda que seja um assunto espinhoso - faz parte da estrutura do psiquismo humano e 'anda' entre nós desde nossa origem. Prova disto é que faz parte do nosso processo cultural, atuando com bastante frequência, ainda que sob um véu de inexistência no nosso processo organizacional.

Analisado com um dos maiores tabus da humanidade, vem sendo exaustivamente debatido e só perdendo para um outro assunto, igualmente carregado de mistérios, medos e pecados: a sexualidade. Só podendo ser discutido sob o mesmo véu, ou seja, escondido. O que torna esta discussão um estudo fenomenológico interessantíssimo.

Afinal, a história nos revela que a inveja tem sido a ferramenta usada para justificar mortes, traições e ainda pautado guerras e revoluções. Marca, inclusive, da falta do respeito de um homem pelas diferenças do outro [ou do que ele possui].

Sob este olhar, a inveja é 'inconcebida, um parto sem gestação' ou um filho que ninguém assume ser seu. Talvez, por isso, amei a possibilidade de conversar sobre ela. E, já há algum tempo, tentando pautá-la, admito, sem sucesso, entre amigos. E, ao bem da verdade, já tendo sido motivos de boas discussões, grandes risadas e, claro, muitos 'nãos' e sonoros 'eu, jamais!'.

Risos. Imagina!

Todo mundo já teve uma pontinha de inveja, mesmo que não admita, por conta da palavra ser impregnada de negativismo e proibida biblicamente como um grande pecado. E ninguém que enfrentar um júri que te aponta que você 'pode ir para o inferno, por conta de ter desejado estar no lugar daquela pessoa, naquele dia ou naquela situação'.

Assim, ainda que não chegue a ser rei, a inveja é uma grande iminência parda. Sobretudo em discussões sobre diferenças, respeito, injustiça social. Mas quem, de fato, não deseja acordar com tudo diferente na sua vida? Por um segundinho perguntar a Deus porque não poderia estar no lugar daquele amigo que acabou de te mandar um presente, olha que chique, da Grécia! Ou te enviou um mimo de Paris! Agora, se for de Dubai, esquece, é inveja mesmo! Risos.

Mas será, amigos, que há como quebrar tamanho [pre] conceito a uma sensação que anda tão comumente entre nós? Será que isto é possível? Dá para aprender a lidar com as diferenças? Já que a diferença traz, em seu processo conceitual, um pedaço ou 'sensação da injustiça' quanto ao que 'um tem e outro não e porque?'. O que pauta esta escolha? Aliás, seria escolha divina dar mais para um do que para o outro?

E, sob este contexto das diferenças, vale tudo em se tratando da discussão dos que têm mais dinheiro, posição social, gordas heranças, belos corpos, enfim. E, claro, vale também a pergunta: os proprietários dos que têm mais, têm por merecimento?

Diante disto, a inveja não é um tema interessantíssimo? Até para aqueles que se perguntam - em uma circunstância específica - sobre os motivos do outro ter inveja e, assim, não gostar dele. Ou perguntas mais diretas como, por exemplo, 'o que faço para não sentir inveja? Como lidar com a inveja alheia? Será que eu provoquei a inveja alheia? Quem me inveja pode me fazer mal. E ainda, a inveja é "olho gordo"?'

Bom, como a intenção a este assunto não é encontrar respostas, mas desvelar o assunto entre nós, preciso, à parte das discussões, revelar que nunca senti inveja (risos!). Mentira! Sou uma moça de família muito simples que só pude conhecer lugares e roupas de marca já adulta. Então, imagina, claro, já senti, sim, inveja, porém uma inveja sem maldade, sem querer o que é dos outros, sem desmerecer o sucesso, a felicidade do outro e, sim, admirar pela sua conquista. Isso sim pode ser observado como algo positivo.

Dentro do debate daquela 'invejinha' que não acarreta horrores e malefícios. Desta forma, bem longe da raiva ou do ódio. Desta representação do sentimento obscuro, impregnado nos bandidos, ladrões e assassinos.

Mas, venhamos e convenhamos, quem não sentiu uma pontinha de inveja? Quem nunca se não se perguntou, às escondidas, mas perguntou, porque aquela pessoa nasceu com mais atributos do que ele? Que exibem, com uma naturalidade constrangedora, qualidades que você não possui?

A valer a frase de Aristóteles (1899) - que 'praticamente, tudo o que traz felicidade estimula a inveja' -, então, quando nada, o tema acaba sendo uma discussão de excelência. Sob o olhar da leitura 'fina', leve e saudável, porque não?

E você amigo, já sentiu inveja? Bom, eu admito: já. Como admito que, após minhas lutas e conquistas, com muitas derrotas e choros no meio deste caminho, muitos também sentem 'uma pontinha de inveja' ou em algum momento sentiram inveja de mim!

Lucy Macedo é empresária e Diretora do site Única News e da Revista Única