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Cuiabá, 06 de Outubro de 2026

Opinião Terça-feira, 30 de Setembro de 2025, 10:28 - A | A

Terça-feira, 30 de Setembro de 2025, 10h:28 - A | A

ANA CAROLINA BARCHET

O eterno pedinte: a advocacia e seu ritual de súplicas

No fim das contas, peticionar não é só um verbo; é uma filosofia de vida

Ana Carolina Barchet

Ah, a nobre arte de peticionar! Vamos começar pela raiz da coisa, porque nada como uma pitada de etimologia para elevar o debate. A palavra "pedir" vem do latim *petere*, que significa "buscar", "alcançar" ou, em contextos mais humildes, "solicitar com insistência". Não é à toa que, no direito romano, *petitio* era o ato de reclamar algo perante a autoridade – uma súplica disfarçada de formalidade. Rapidamente para os dias de hoje, e voilà: o advogado moderno é o herdeiro direto desse legado, um eterno pedinte em toga, implorando por justiça, prazos, provas e, quem sabe, um pouco de sanidade.

Na vida da advocacia, tudo é um "pedir". Pede-se ao cliente para não omitir fatos cruciais (porque, claro, eles sempre acham que detalhes são opcionais). Pede-se ao juiz para analisar o mérito (em vez de sepultá-lo sob pilhas de despachos genéricos). Pede-se ao estagiário para não confundir "embargos" com "embaraços" – embora, francamente, os dois se misturem com frequência alarmante. É um ciclo vicioso: o advogado peticiona, o sistema mastiga, e o resultado? Mais uma petição para corrigir o que o sistema mastigou errado. Inteligente, não? Como se a advocacia fosse um jogo de xadrez onde o tabuleiro decide mover as peças sozinho, e você só pode suplicar por uma jogada justa.

E aí entra a tecnologia, essa salvadora reluzente que prometia eficiência, mas entrega caos com um sorriso digital. O PJe, o famigerado Processo Judicial Eletrônico, é o ápice dessa ironia. Projetado para agilizar, ele nos impõe um novo nível de "pedir": pedir que o sistema carregue sem travar, pedir que o certificado digital não expire no meio da assinatura (porque nada grita "progresso" como um erro 404 na hora H), pedir que os anexos não sumam no éter cibernético. Transtornos? Ah, sim: atualizações que quebram tudo, interfaces que parecem puzzles de Rubik para analfabetos digitais, e o clássico "serviço indisponível" que transforma um prazo de horas em uma maratona de súplicas ao suporte técnico. É como se a tecnologia dissesse: "Ei, advogado, além de pedir justiça, agora peça para eu funcionar direito". Brincadeira do universo ou problema de gestão? Sem, resposta que convença, o profissional da advocacia, esse gladiador moderno, gasta mais tempo brigando com pixels do que com argumentos jurídicos.

No fim das contas, peticionar não é só um verbo; é uma filosofia de vida. Uma eterna mendicância intelectual, onde o advogado implora por um mundo onde a justiça não dependa de caprichos humanos ou glitches eletrônicos. Mas ei, quem sabe no próximo update do PJe não venha uma função "pedir milagre"? Até lá, continuamos pedindo – com inteligência, claro, e uma dose saudável de sarcasmo para não enlouquecer.

Ana Carolina Barchet, ex conselheira federal da OAB/MT (2019/2024)